Ana Campos Reis: «Basta ligar a televisão para perceber o estigma»

ENTREVISTA

«Basta ligar a televisão para perceber o reflexo da discriminação, do preconceito, do estigma»

Ana Campos Reis

Nasceu no Alentejo, mas há muito que Lisboa a adoptou, ou não fosse um dos rostos mais visíveis do auxílio à população fragilizada da capital, a alma da “Casa Amarela”. Ana Campos Reis diz que não foi ela que escolheu a Enfermagem, mas o inverso. Neta e filha de agricultores, foi “cultivando” amor, esperança e rigor profissional. Hoje “colhe os frutos”: pessoas que sobreviveram à Sida ainda hoje lhe telefonam, vão ao seu encontro nos eventos e até se levantam mais cedo para regar o jardim nos dias em que a enfermeira regressa à sua segunda casa: a Residência de Santa Rita de Cássia.

CUIDANos anos 80, numa altura em que a Sida era encarada como uma espécie de “peste” dos tempos modernos, não receou tratar, conviver e defender os direitos de seropositivos ou portadores do VIH/SIDA, aqui na Residência de Santa Rita de Cássia (“Casa Amarela”) e fora dela. O que a motivou?

Ana Campos Reis – A minha maneira de ser, de estar, o sentido da minha vida. O Projecto Solidariedade, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, criou uma resposta inovadora: a Residência de Santa Rita de Cássia, destinada a receber seropositivos que não tinham estrutura familiar. Eram pessoas que viviam na rua ou tinham dificuldades de alojamento, porque à época até nos albergues e nas camaratas havia um receio imenso relativamente à doença. Desde o primeiro momento acreditei que os saberes e procedimentos de Enfermagem eram suficientes para enfrentar a problemática sem medos. O meu grande objectivo foi impedir que estas pessoas continuassem a ser discriminadas e que tivessem os mesmos direitos que os outros, garantindo as boas práticas num serviço que dirigi desde o primeiro momento com espírito de missão, onde as pessoas merecem tudo para serem felizes. Esta foi uma luta a que dediquei 25 anos da minha vida profissional.

CUIDA – E apenas encontrou pessoas com vidas desestruturadas?

ACR – Não, de todo. Também vieram algumas pessoas que tinham vidas organizadas, em que a única carência era o isolamento. Eram vítimas de discriminação por ignorância, ou antes, pelo snobismo da ignorância. Naquela altura o isolamento matava quase tanto quanto a própria doença. Era a morte social que se antecipava aos aspectos clínicos.

«Basta ligar a televisão para perceber o reflexo da discriminação, do preconceito, do estigma»

CUIDA – Foi muito criticada?

ACR – Por algumas pessoas sim, até fui acusada de uma certa loucura. Esse preconceito acompanhou todo o meu exercício profissional. Mas não são os aspectos negativos que quero recordar, isso seria muito injusto. Encontrei pessoas fantásticas, solidárias, profissionais de “mão cheia” em todas as áreas – algumas manifestavam o seu sentido da vida quando tiveram de ajudar estes doentes. As críticas estenderam-se não só a mim, como à própria iniciativa, por incompreensão, por dar uma resposta inovadora à época e pretender a inclusão. Para muitas pessoas, a residência para seropositivos devia impedir que os doentes estivessem na comunidade. Contudo, esta casa substituiu a rua, os bancos do jardim e a morte solitária – dando segurança e força para as pessoas recuperarem as suas vidas, recriando redes de amigos e de afectos. Para esses a casa fez toda a diferença.

CUIDA – E a esperança transmitida foi fundamental….

ACR – Nas conversas que tínhamos costumava dizer “vamos estar cá até à cura” e vamos mesmo! Isso foi muito importante. Mas também tiveram um papel fundamental a melhoria das condições de vida, a ajuda na capacitação dos doentes para aderirem aos seus planos terapêuticos, o acompanhamento às consultas e tratamentos, bem como a conquista de estilos de vida mais saudáveis. Todos os meus meninos que aqui chegaram com os seus 19/20 anos estão a caminho dos 50 anos, em situação de doença crónica. Aliás, recebemos uma das primeiras pessoas que foi diagnosticada em Lisboa e ela conseguiu fazer o seu trajecto de vida. No total, mais de 4.000 pessoas já passaram por este serviço, actualmente também acessível a outras patologias.

CUIDA – Como é ser a “Senhora Inclusão”?

ACR – É uma honra e uma grande responsabilidade. É orientar para uma vida com qualidade, aumentar a auto-estima do outro e amá-lo incondicionalmente. É estar disponível, ajudar as pessoas a encontrar a sua esperança. Há medicamentos para a dor, mas a esperança tem de ser encontrada em cada um, para que ela possa potenciar o efeito do medicamento.

CUIDA – Qual foi a principal dificuldade enfrentada: chegar ao coração desses doentes e fazer com que eles percebessem a complexidade da doença ou lutar para que a sociedade os integrasse?

ACR – Nunca senti nenhuma dificuldade na relação com os doentes. A primeira coisa que ouviam quando chegavam era “Olá, estou aqui, queres dar-me um abracinho?”. Isso foi fundamental para que, de uma atitude de desconfiança, as pessoas passassem a uma sensação de alívio e de tranquilidade. Era importante que sentissem que a patologia não ia interferir na forma como seriam tratados.

A discriminação não é feita pelos doentes, mas sim pela sociedade. Muitas vezes reflecti sobre o facto de os serviços públicos responsáveis pelo atendimento por vezes reforçarem o medo em vez de o diluir! Ser discriminado nos serviços onde se ia pedir apoio era, no mínimo, desconcertante. Conheço quem tivesse travado um pouco as suas atitudes de discriminação apenas quando a doença começou a atingir familiares e amigos. E, apesar de já terem passado mais de 30 anos desde o aparecimento da Sida, a comunidade ainda não está totalmente preparada. Basta ligar a televisão para perceber o reflexo da discriminação, do preconceito, do estigma não só nesta situação, como noutras áreas da sociedade.

«Discriminação: “Falta formação humana e valores»

CUIDA – O que falta à sociedade para que esteja preparada?

ACR – Falta formação humana e valores, que devem ser ensinados desde tenra idade. Costumo dizer que, apesar de ser católica, não me chocou retirarem o cruxifixo das escolas. O problema foi o prego vazio, aquele prego onde costumava estar esse mesmo crucifixo. Se as pessoas tivessem sempre presente que a discriminação é fruto de preconceitos e que leva ao isolamento, ao sofrimento físico e psicológico, podendo mesmo desencadear estados depressivos ou até situações que podem comprometer a vida, provavelmente iriam agir de forma diferente. Paradoxalmente, quem não revela valores, quem não tem disponibilidade para a solidariedade frequentemente é mais exigente quando o sofrimento lhe bate à porta.

«Discriminação: o “snobismo da ignorância”»

CUIDA – Ainda hoje se emociona quando recorda uma das situações mais difíceis da sua carreira…

ACR – Certo dia acolhi uma grávida com 40 anos que já tinha duas filhas e o marido era seropositivo sem que ela soubesse! A senhora descobriu que estava infectada com o VIH/SIDA, na consulta da maternidade. Eu tinha quase a mesma idade e naquele dia estava mais fragilizada, talvez devido a algum cansaço. Não contive as lágrimas.

CUIDA – Sempre quis ser enfermeira ou a profissão foi um feliz acaso da vida?

ACR – Foi efectivamente um acaso. A minha irmã mais velha teve poliomielite quando nasci e devido aos seus internamentos prolongados sempre tive contacto com esta área. Mas aos 14 anos vim passar alguns dias com ela ao Hospital de Sant’Ana, na Parede. Podia passar o dia com a minha irmã e ficar alojada no hospital. Em troca tinha de ajudar a dar refeições aos bebés. Passados uns dias já tinha uma farda e um horário! Dois anos mais tarde obtive uma bolsa de estudo para fazer o Curso Geral de Enfermagem na Escola de Enfermagem de S. Vicente de Paulo, em Lisboa. Foi assim que tudo começou.

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