Ana Rita Cavaco

ENTREVISTA

«Os enfermeiros estão a perder o medo porque sentem que têm uma ordem que os defende»

Ana Rita Cavaco

“A mudança começa em cada um de nós, está em marcha e nota-se: os enfermeiros estão a liderar o debate sobre Saúde em Portugal e isso é histórico”, explica Ana Rita Cavaco. Palavras de quem diz “estar” Bastonária porque “ser” é outra coisa. “Temos o dever de proteger os doentes, defender os enfermeiros e garantir vida longa ao nosso sistema de saúde. E vamos fazê-lo, doa a quem doer”. Este é o seu estilo, sem medo de palavras ou acções.

CUIDA – Qual o balanço que faz destes primeiros meses enquanto Bastonária?

Ana Rita Cavaco – Faço um balanço positivo do ponto de vista da proximidade com os colegas que trabalham todos os dias nos serviços e pelo facto de conseguirmos marcar a “agenda” da Saúde. Com esta equipa à frente da OE temos mobilizado o debate político porque há problemas graves para resolver. Os enfermeiros estão a liderar o debate sobre Saúde em Portugal e isso é histórico. Foi esse o compromisso que assumimos com as pessoas e se não o fizéssemos estaríamos a falhar perante o País.

Já no que diz respeito às relações com o Governo, gostava de que estivessem num patamar mais operacional. As intenções podem ser boas, mas há uma altura em que têm de se traduzir em actos que se sintam nos serviços. A classe política – e não apenas este Governo – tem que se habituar a cumprir o que diz que vai fazer. Isso é muito importante para termos confiança uns nos outros e gerirmos bem as nossas instituições.

CUIDA – Até onde é que a OE está disposta a ir para que a realidade da Saúde mude definitivamente?

ARC – Até onde for preciso. Os enfermeiros são pessoas simples que trabalham muito todos os dias, com uma noção muito clara das necessidades das pessoas e está na altura dos gestores das unidades de saúde também terem essa noção. Os conselhos de administração dos hospitais têm de perceber de uma vez por todas que não são extensões do Governo e não podem esconder os problemas. Por isso, a OE irá sempre denunciar situações que colocam em risco a segurança das pessoas para que elas se resolvam, porque queremos que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) cresça, não que impluda. Os enfermeiros estão a perder o medo porque sentem que têm uma Ordem que os defende. Chegam-nos cada vez mais denúncias sobre situações que colocam em risco a segurança das pessoas. Os colegas começaram a entender que é assim que se faz a mudança, que a mudança começa em cada um de nós.

«Temos o dever de proteger os doentes, defender os enfermeiros e garantir longa vida ao nosso sistema de saúde. E vamos fazê-lo, doa a quem doer»

CUIDA – Dos relatos que lhe chegam directamente dos serviços, qual é o «sintoma» mais prevalente?

ARC – Há pessoas que me dizem que estão de baixa por exaustão, outras falam em situações de grande stress psicológico que as chefias intermédias ou a gestão dos hospitais acabaram por agravar. Quem tem funções de chefia – quer seja intermédia ou de topo – tem de pensar como podem gerir esta realidade e perceber se está a preveni-la ou se estão a ser catalisadores. Recordo que há princípios que se aplicam a todos e por isso, ao contrário do que aconteceu em mandatos anteriores, se houver um enfermeiro a incumprir o que está estipulado pela Ordem tem de responder por isso, seja ou não chefe.

CUIDA – No final do mandato, o que fará com que esta equipa tenha a sensação de “missão cumprida”?

ARC – Temos um plano de acção com 10 propostas e é evidente que as dotações seguras são prioritárias. Mas ficarei muito feliz se esta equipa conseguir mudar a realidade com a aplicação de outras propostas, nomeadamente no que diz respeito à atribuição de especialidades, criação de novas especialidades e de instrumentos que valorizem os enfermeiros na prática. Gostava que daqui a quatro anos os enfermeiros sentissem ainda mais orgulho em ser enfermeiros, e não menos importante, que o nosso país percebesse de uma vez por todas que não deixamos ninguém sozinho. Temos o dever de proteger os doentes, defender os enfermeiros e garantir vida longa ao nosso sistema de saúde. E vamos fazê-lo, doa a quem doer.

CUIDA – Qual é a receptividade do Ministério da Saúde à questão das especialidades?

ARC – O senhor Ministro e os senhores secretários de Estado concordam com modelo de especialidades proposto pela OE e demostraram abertura para ajudar a Ordem a concretizá-lo. Por isso, vão haver novas especialidades em Enfermagem: as que já estavam a ser trabalhadas, mas também algumas novas.

CUIDA – E a receptividade dos governantes manteve-se relativamente ao reconhecimento remuneratório dos enfermeiros especialistas?

ARC – Sim, há disponibilidade, mas mais uma vez temos de passar para propostas efectivas porque se isso não acontecer obriga a Ordem a ter outro tipo de actuação. Um especialista não tem o mesmo core de competência, por isso não pode ter a mesma remuneração. Não é assim em nenhuma profissão e nós não vamos ser a excepção.

«Se houver um enfermeiro a incumprir o que está estipulado pela Ordem tem de responder por isso, seja ou não chefe»

CUIDA – Será que a Saúde conseguirá, no actual mandato governativo, ter mais força do que as Finanças?

ARC – É um questão de prioridades. Não podemos estar sistematicamente a falar de mais dinheiro para a banca, salários mais altos para os gestores e depois não termos um plano ou uma estratégia para a Saúde. Há muito dinheiro mal gasto que pode ser investido no básico. Estas questões têm sido debatidas com outras Ordens, nomeadamente com a dos Médicos e com a dos Farmacêuticos, e pensamos todos da mesma forma: por que é que o poder político tem esta incapacidade? Por que é que vivemos a Saúde ao dia e não a planeamos a vários anos? Pouparíamos muitos recursos que poderíamos investir na contratação de enfermeiros.

«Não podemos estar sistematicamente a falar de mais dinheiro para a banca, salários mais altos para os gestores e depois não termos um plano ou uma estratégia para a Saúde»

CUIDA – Acredita que os enfermeiros vão voltar aos CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes)?

ARC – Vamos apresentar uma proposta ao Dr. Fernando Araújo, Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, sobre Emergência Médica. Esta é uma área onde a Ordem tem alguma culpa do ponto a que chegámos porque devia, há muito tempo, ter regulamentado as competências dos enfermeiros de Emergência Pré-hospitalar (EPH), apesar dos diversos pedidos do anterior Presidente do INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) à anterior direcção da OE.

Relativamente aos técnicos de emergência, consideramos que toda a gente tem direito a ter uma carreira – desde que não colida com a nossa. Para se ser médico ou enfermeiro tem que se tirar os respectivos cursos. É certo que a anterior direcção da OE ganhou uma providência cautelar, mas nunca avançou com o processo principal. Logo, foi uma conquista temporária e limitada.

Na proposta que iremos apresentar ao Ministério incluímos a regulação de competências dos enfermeiros de EPH e uma nova forma de funcionamento de determinados meios onde existem enfermeiros.

CUIDA – Costuma referir que “está Bastonária” e não que “é Bastonária”. O que mudou no seu dia-a-dia desde 30 de Janeiro?

ARC – Mudou a minha disponibilidade para pessoas que não estão relacionadas com a Enfermagem. Há amigos que me vêem muito menos, mas em contrapartida passei a estar em contacto quase 24 horas por dia com enfermeiros porque respondo a todas as solicitações. Não há um dia em que não responda a várias mensagens de colegas, emails e passe horas ao telefone a tentar desbloquear as mais variadas situações. De resto, continuo a ser a mesma pessoa. Seguramente que farei um bom mandato se não perder de vista que serei sempre enfermeira, serei sempre a Ana Rita e que daqui a quatro anos voltarei a exercer a minha profissão, como sempre fiz.

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