Dia do Transplante: Os Enfermeiros e a transplantação em Portugal

O número de órgãos colhidos para transplante tem vindo a crescer no nosso país.

Até 2015, Portugal estava em 4º lugar no que diz respeito à taxa de dadores de órgãos, quer na Europa, quer a nível mundial. A partir de 2016, o número de transplantes aumentou significativamente. Foi também nesse ano que se procedeu, pela primeira vez, a transplantes com órgãos de dadores em paragem circulatória (“coração parado”).

Ao longo dos tempos, a evolução legislativa foi impulsionando o crescimento da actividade. De acordo com o enfermeiro Marco Batista, vogal do Conselho de Enfermagem Regional do Sul, a Ordem dos Enfermeiros tem contribuído, “tanto através do apoio aos directores dos gabinetes coordenadores de colheita e transplantação, uma vez que a maioria são enfermeiros, como também na regulamentação das competências dos enfermeiros na área da prestação de cuidados”.

Hoje em dia, o envolvimento dos enfermeiros nesta área é total porque participam em todas as fases do processo. São o elemento crucial na identificação de possíveis dadores, uma vez que são os que recebem os doentes nos serviços de urgência ou nas unidades de cuidados intensivos e são os únicos que permanecem continuamente junto do doente. Para além disso, todo o processo cirúrgico e intra-operatório da colheita está muito assente na actividade dos enfermeiros.

Neste processo estão envolvidos vários meios de apoio que se articulam: os transportes do centro hospitalar que fazem a deslocação das equipas; a GNR que apoia no transporte das células para centros de sangue e transplantação, para serem efectuados os estudos prévios necessários ao transplante; a Força Aérea no caso de uma deslocação para zonas muito afastadas de Lisboa; e o INEM quando é necessária uma maior celeridade, para que se garantam as condições necessárias para o transplante.

Mas como explica o enfermeiro Fernando Rodrigues, Director do Gabinete Coordenador de Colheita e Transplantação do Hospital de S. José, o processo continua dependente destes profissionais, “na preparação do transplante, no acompanhamento do doente pós-transplante e no seguimento do doente já depois da alta hospitalar, em consultas de pós-transplante”.

Esta actividade é fruto de formação e diferenciação continuadas. As equipas dos Gabinetes de Colheita e Transplantação são constituídas maioritariamente por enfermeiros, com conhecimento específico. E estão constantemente a ser desenvolvidos programas para o desenvolvimento de competências. Para a Dr.ª Ana França, coordenadora Nacional da Transplantação, “é um trabalho que nunca está completo quer em relação ao tratamento do dador, quer às condições para a colheita”, ou para “que se possa efectuar uma transplantação segura, de forma que o receptor tenha sempre o máximo benefício”.

É com esse objectivo que esta actividade continua a tentar superar-se.

Actualmente, o Gabinete de Colheita e Transplantação do Hospital de São José, está apto para recolher não só órgãos mas também tecidos. O que, segundo o enfermeiro Fernando Rodrigues, é um método “ainda mais apertado”, com critérios de exigência muito maiores, pois “antes de serem processados, temos de ter a segurança biológica que os tecidos estão em condições de ser utilizados.”

Este Gabinete é o único a nível nacional que tem unidades de transplantação para todos os órgãos transplantáveis em Portugal e é também o único a fazer este tipo de colheita. Este factor é determinante para uma maior disponibilização de tecidos para as unidade de aplicação a nível nacional. Por sua vez, significa uma redução na importação de tecidos vindos do exterior e consequentemente uma diminuição da despesa do Ministério da Saúde.

Mas apesar da evidente evolução, ainda existe uma potencialidade que não está completamente explorada. Muitas das oportunidades de doação surgem nos serviços de urgências e nem sempre são sinalizadas. Para evitar que se continuem a perder possíveis dadores, é necessária uma maior intervenção dos enfermeiros. Para isso, está a ser desenvolvida uma nova abordagem do programa European Training Program on Organ Donation (ETPOD), mas que segundo a Dr.ª Ana França, coordenadora Nacional da Transplantação, vai funcionar em duas etapas, “uma fase de e-learning e uma segunda fase presencial, no sentido de capacitar para a concretização dos objectivos.”, ou seja combater as listas de espera.

No entanto, este é um tema que mexe com crenças e ideologias religiosas ou culturais. Na opinião do enfermeiro Fernando Rodrigues, é igualmente necessária “uma maior consciencialização pois a transplantação é uma arma terapêutica muito poderosa, que pode dar resposta a muitos dos doentes que não têm outra alternativa”.

Todo este processo, é também, por vezes, doloroso para as famílias. Por isso, é ainda importante desmistificar algumas questões junto dos familiares, e ressalvar por exemplo, que embora sejam retirados órgãos, o corpo não sofre alterações ao nível da aparência. Todo o procedimento é cuidadoso para que a imagem seja preservada.

Na verdade, todos somos possíveis dadores de órgãos, mas ninguém é obrigado a ser dador. A lei assegura a vontade de quem não quer que os seus órgãos sejam usados para transplante. Para isso, basta estar inscrito no Registo Nacional de Não Dadores (RENNDA).

Contudo, é preciso não esquecer que, a doação é um acto de generosidade e esta pode ser a única forma de salvar uma outra vida.

Veja o vídeo de reconhecimento e homenagem que a Secção Regional do Sul preparou sobre a área da transplantação.

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