Hepatite A: o que tem de saber

O alerta da Direcção Geral de Saúde para a existência de um surto de Hepatite A que está a afectar Portugal e outros países da União Europeia voltou a colocar a doença em destaque. Com a ajuda da Enfermeira Eva Salgado, membro do Conselho de Enfermagem da Ordem dos Enfermeiros, fique a saber em que consiste a doença e como se previne.

O que é a Hepatite A?

É uma infecção provocada pelo vírus da Hepatite A (VHA) que entra através do aparelho digestivo e que se aloja no fígado, causando uma inflamação denominada hepatite A. O vírus foi descoberto em 1975 e está ligado à falta de cuidados de higiene, sendo mais frequente em países menos desenvolvidos e com poucos acessos a água potável e saneamento básico. A infecção pode durar seis meses, mas a maioria dos doentes recupera ao fim de três semanas. “Se consultássemos um dicionário da língua portuguesa encontraríamos inflamação do fígado como significado de Hepatite. Especificamente a Hepatite A, é uma infecção provocada por um vírus sendo, assim, contagiosa. Esta situação de doença será, dentro das hepatites, a mais comum e a de mais fácil tratamento sem que sequelas, no fígado, permaneçam”, refere a enfermeira Eva Salgado.

Como se transmite?

Em grande parte dos casos de Hepatite A, não se consegue confirmar a origem do contágio. Segundo a Organização Mundial de Saúde, grande parte da transmissão acontece através da ingestão de alimentos ou água contaminados por matéria fecal que contém o vírus, daí ser habitualmente transmitido via fecal-oral. A taxa de transmissão entre os membros da mesma família é de 20 por cento nos adultos e 45 nas crianças. As crianças são, muitas vezes, um veículo transmissor inesperado, já que transmitem o vírus sem se suspeitar que estão doentes por não apresentarem, na maioria das situações, quaisquer sintomas. São raros os casos de contágio por transfusão de sangue ou por via sexual.

Quais são os sintomas associados?

Variam de pessoa para pessoa e também de acordo com a idade. A infecção só apresenta sintomas em 30% dos casos quando se trata de crianças com idade inferior a seis anos. Em crianças mais velhas e adultos a infecção provoca, geralmente, doença clínica em mais de 70% dos casos, refere a DGS. “Nos adultos, os sinais e sintomas mais específicos  são acolia fecal (fezes de cor esbranquiçada), colúria (urina de cor escura ou amarelo mais escuro e sem brilho)e icterícia. Os sinais e sintomas menos específicos, e que podem surgir em qualquer outra infecção, são as náuseas, febre, falta de apetite, fadiga e diarreia. Inicialmente, a doença pode ser confundida com uma gripe ou outro qualquer estado inflamatório seja vírico ou bacteriano. As dúvidas desfazem-se quando a pele e os olhos ficam amarelados e sem brilho, sinal de que o fígado está com mau funcionamento”, diz a enfermeira Eva.

Ao que deve estar atento para se prevenir?

Apesar de não ser uma doença muito comum em Portugal, deve manter-se atento aos cuidados essenciais de higiene alimentar e condições sanitárias. Lavar as mãos depois de usar a casa de banho ou mudar fraldas é essencial, bem como antes de cozinhar ou comer. A Organização Mundial de Saúde aconselhas também a ter cuidado com a origem da água que ingere e relações sexuais seguras. Se conviver com pessoas infectadas, o risco de contágio aumenta e deve ter uma atenção redobrada. Lavar a louça a altas temperaturas (na máquina, de preferência), não utilizar a mesma sanita, não partilhar a mesma cama e ponderar os contactos sexuais, evitando o sexo oro-anal e usando preservativo no caso da penetração anal.

Que riscos corre se ficar infectado?

Em princípio não irá correr risco de vida, apesar de não existir um tratamento específico. A vacina contra a Hepatite A foi obtida a partir do vírus inactivo e é considerada bastante eficaz. O repouso é essencial até que o fígado esteja menos inflamado, sendo que nesse período de tempo é desaconselhada a ingestão de bebidas alcoólicas. Todas as medidas aconselhadas para a prevenção, nomeadamente ao nível da higiene e segurança alimentar, aplicam-se também quando já se contraiu o vírus. “Há, no entanto, formas de se acelerar a recuperação. O plano terapêutico assenta, essencialmente, em tratar os sintomas que vão surgindo. Além disso importa descansar e fazer pequenos lanches ao longo do dia”.

Quais são os grupos de risco da Hepatite A?

Familiares ou parceiros sexuais de pessoas infectadas, pessoas que não estejam vacinadas ou que não tenham os anticorpos necessários, médicos e paramédicos que trabalhem em hospitais, viajantes para países menos desenvolvidos onde a doença é endémica, toxicodependentes que usam agulhas não esterilizadas, pessoas que trabalham na recolha e processamento de lixo e nos esgotos, pessoas que pratiquem sexo não protegido, frequentadores e pessoal que trabalha em instituições comunitárias, nomeadamente infantários, escolas, refeitórios, entre outros.

Devo ficar preocupado com este surto repentino de hepatite A?

Não. Portugal é hoje considerado um país de baixa endemicidade. A situação epidemiológica é actualmente muito diferente daquela que se vivia antes de 1980 do século passado. Em 2015 foram detectados 29 casos da doença pela DGS. Já em 2013 e 2011 foram notificados 20 e 17 casos, respectivamente. A melhoria da higiene, a introdução e expansão do saneamento nas grandes cidades, a melhoria das condições sócio-económicas das famílias, bem como a maior disponibilidade de vacinas para os grupos de risco, diminuiu consideravelmente o nível de risco de contrair a doença.

 

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