Márcio Silva: “A Aicha é a filha que não tenho”

ENTREVISTA

“A Aicha é a filha que não tenho”

Márcio Silva

Chove e é quase de noite quando chegamos ao Hospital de Valongo. Um dia demasiado chuvoso para Setembro. A lua já toma o lugar do sol apesar de serem só 18h30. Chegamos com uma certeza: há luzes que nunca se apagam. A do INEM é uma delas e lá está o Márcio de serviço. Márcio já fez três missões humanitárias, é bombeiro e enfermeiro. Enfermeiro de profissão, voluntário por paixão. É a forma mais correcta que existe para definir a vida de Márcio. Esta história é um bocadinho dele, contada pela ATUA, a revista da Secção Regional do Norte da OE.

CUIDA – Para onde faria as malas e embarcava já hoje?

Márcio Silva – Hoje já estou a fazer as malas porque vou em missão humanitária para o Quénia no próximo mês. Irei para uma das maiores favelas do Mundo, Kibera, com dois milhões e meio de pessoas.

CUIDA – O que te levou a ser enfermeiro?

MS – No secundário sempre soube o que não queria fazer, o que queremos é sempre mais difícil porque havendo paixão podemos ser sempre realizados. No entanto, aos 18 anos fui diagnosticado com uma doença que me levou a ser internado no Hospital de S. João e o facto de os enfermeiros passarem as noites comigo fez-me perceber que ser enfermeiro é muito mais do que ser um técnico, é ser alguém que nos acompanha no processo de recuperação. Foi o enfermeiro Daniel que despertou a minha consciência para a importância do cuidar.

“Fazemos o que temos de fazer quando temos de fazer, não pensamos, agimos”

CUIDA – O enfermeiro Daniel é o enfermeiro da sua vida?

MS – Sim! Posso dizer que sim.

CUIDA – Como desperta a sua paixão pelas missões humanitárias? O que deve saber uma pessoa queira fazer uma missão?

MS – Mais do que uma paixão é uma forma de vida, de ser e de estar. Como em tudo na vida, o que importa são as pessoas que integram as missões. Temos de partir com uma certeza, a missão humanitária não é um trabalho das 9h às 17h. Apesar dos ‘clusters’ que a ONU define, temos de fazer o que é preciso, quando é preciso, da forma que é preciso. Não se esgota na nossa área de competências. Podemos ter de fazer secretariado, higienização de espaços, montar tendas, cavar terrenos para cultivo ou ter de explicar porque é que as fossas sépticas não podem estar junto dos poços de água. Temos de perceber que não é uma vida como estar em casa, ir ao ginásio, ir ao cinema, sair com os amigos para beber um copo…

CUIDA – Podemos dizer que corre para onde os outros querem fugir?

MS – Costumo definir o voluntariado como expoente máximo do egoísmo. A procura desses sítios onde falta fazer tudo, onde possamos fazer as grávidas terem consultas da grávida, as crianças nascerem saudáveis, as crianças serem vacinadas, os idosos medicados, tratar as doenças infecciosas, contribuir para a melhoria de vida destas pessoas faz-nos sentir bem.

CUIDA – Mas sente-se bem por deixar alguém melhor…

MS – Viveram melhor, mas depois venho embora. E qual é a sustentabilidade do meu trabalho? Com o que ficam aquelas pessoas? Tanto em missões como nos serviços públicos, só poderemos garantir sustentabilidade e visão de futuro quando forem permitidas auditorias externas aos serviços.

“Quando estamos lá tornamo-nos um pouco inconscientes”

CUIDA – O que significa ser enfermeiro em contexto de catástrofe?

MS – Significa que podemos ter de dormir dois ou três meses numa tenda, no chão, ou ao relento, ser acordado às 3 ou 4 da manhã porque alguém foi esfaqueado. Além disso tens de estar pronto para aceitar uma cultura totalmente diferente. É depararmo-nos com uma realidade que não é a nossa. É estar num sítio sem água potável, saneamento e ter cuidado com as pessoas porque muitas vezes a população sente que não nos chamou e como nem sempre nos entendem, não entendem o que estamos lá a fazer.

“Nem todas as missões são sustentáveis”

CUIDA – Quando está onde não está mais ninguém, sente na altura esse peso nos ombros?

MS – Quando estamos lá tornamo-nos um pouco inconscientes. Fazemos o que temos de fazer quando temos de fazer, não pensamos, agimos. Sinto mais o peso da responsabilidade de saber que hoje, as pessoas que ajudamos deixaram de tomar os medicamentos porque não está lá ninguém. Nem todas as missões são sustentáveis.

CUIDA – O que traz na memória quando regressa? Cheiros? Rostos?

MS – Internacionais não foram muitas, foram só três, mas há uma coisa transversal às três. O tempo que demoro a recuperar! Fico sem paciência para a criança que chora porque quer um brinquedo, o nosso amigo que só consegue bilhete de cinema para 01h00 em vez das 00h00. Todas essas coisas triviais deixam de fazer sentido, porque do outro lado estive com crianças que pedem um saco de plástico para brincar ou fazem um carrinho com as garrafas que arranjam.

CUIDA – Conte-nos a história do enfermeiro que conheceu uma menina guineense…

MS – É uma história muito simples. Fomos para a Guiné com a missão de detectar e encaminhar os doentes com Ébola, pela questão fronteiriça com a Guiné-Conacri e a proximidade com a Serra Leoa e a Nigéria. Esta missão foi do INEM em conjunto com o Instituto Ricardo Jorge. Tínhamos ainda a função de formar em emergência médica. O problema é que não vale a pena falar de emergência num sítio onde não existe um insuflador manual, um catéter ou um sistema de soro num serviço de urgência. Tem de se comprar à farmácia do hospital seja o soro, a seringa, a agulha, esta é a forma de sustentarem o hospital. A UCI só tem camas afastadas 1,5m e janelas abertas com redes mosquiteiras. Até têm algum material que foi doado, mas ninguém lhe sabe mexer. Percebemos que não conseguiríamos fazer nada em pouco tempo pelo hospital. Um dia a enfermeira directora pediu-nos ajuda na unidade de queimados, que tinha homens, mulheres e crianças a monte, sem higiene e a única coisa de que dispunham para fazer pensos era Betadine misturado com lactato de Ringer que se espalhava pelos doentes e depois se tapava com algodão ou compressas não esterilizadas. Nessa desgraça toda encontramos uma criança que estava a apodrecer. O cheiro a carne queimada misturado com o das fezes e da urina que havia no colchão fez-nos pensar se estaríamos no séc. XXI. Tivemos autorização para intervir naquela criança, mas disseram-nos que mais valia deixar resolver naturalmente, com a morte da menina. Apesar de não haver análises, estava notoriamente em sepsis com um estado de infecção avançado, desnutrida, desidratada, muito mal tratada. Com o esforço de um sem número de pessoas e instituições conseguimos trazer a criança para Portugal, dar-lhe roupa, fazer pensos e assegurar o material para eles. Se não fosse toda esta, gente não conseguiríamos que esta menina estivesse hoje no segundo ano na escola de Bafata. Marcou-me muito o dia em que chegou e me disse: “Márcio, hoje é dia de fazer o penso?” Ver o video dela a descobrir o que era um chuveiro, comer o primeiro gelado ou ficar a olhar para a torneira sem saber o que era. O que mais gosto de me lembrar é de quando retiramos as faixas e ela começou a chorar copiosamente enquanto dizia: “Márcio, eu já não tenho ferida”. Foram 30 dias em que estivemos internados, digo internados porque dormi lá todos os dias. Depois esteve a viver comigo e com a minha família durante quatro meses. É a filha que não tenho! Obviamente, não sai da minha cabeça.

CUIDA – Vê-se que ainda hoje vocês não desistiram dela …

MS – Não. Ainda hoje a missão do Instituto Ricardo Jorge cuida daquela família, porque deixou de ser uma criança para ser a família. Desde o garantir a continuidade na escola, alimentação, levar roupa, etc.

CUIDA – É enfermeiro, é bombeiro, trabalha no INEM e com os Médicos do Mundo. Quando é que tem tempo para o Márcio?

MS – Tenho tempo para mim quando faço aquilo que gosto. Todos os dias, no meu ginásio, tenho um período de introspecção e onde tenho muito tempo para mim. Além disso, há sempre um período que me reservo para mim e para a minha família. Apesar de tudo, eu tenho o privilégio de fazer aquilo que gosto.

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