Vamos onde não vai mais ninguém

A Saúde deve chegar a todo o lado e onde há uma pessoa, há um Enfermeiro. Por isso, vamos onde não vai mais ninguém. Dando cumprimento ao lema ‘Ninguém Está Sozinho, a Ordem dos Enfermeiros deixou a avenida e foi a todos os cantos do País. Os Enfermeiros fizeram-se à estrada numa unidade móvel de Saúde e, entre Novembro e Dezembro, percorreram as localidades mais esquecidas, de Norte a Sul, do Litoral ao Interior, levando com eles o carinho, a atenção e o profissionalismo de sempre.

Mais do que as centenas de rastreios realizados – glicémia, colesterol, tensão arterial, etc -, das informações e conselhos dados, os Enfermeiros ouviram muito e gostaram do que ouviram. “É fascinante ver aqui a vossa presença”; “Deviam vir mais vezes” ou “Os enfermeiros são uma classe muito importante”, foram algumas das frases mais gratificantes, ditas com verdadeiros sorrisos de agradecimento pela iniciativa da Ordem. Histórias antigas, sentimentos genuínos, emoções à flor da pele. Comoção por perceberem que fazem falta todos os dias e como a sua simples presença numa terra mais distante, ao fazer aquilo que fazem todos os dias, conseguiu marcar a vida de uma comunidade. A primeira paragem foi em Arcos de Valdevez. Com cerca de 21 mil habitantes, esta vila embrenhada na magia das serras do Minho e do Parque Nacional da Peneda-Gerês, recebeu de braços abertos os enfermeiros.

Nas primeiras horas de trabalho, tornou-se evidente que existia um denominador comum na saúde das pessoas: os hábitos alimentares. Aliás, este tema foi um dos assuntos principais ao longo de todo o projecto. Apesar dos avisos recorrentes das entidades da Saúde, o primeiro Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física em Portugal, apresentado no ano passado, revela que a obesidade, o álcool e o consumo de açúcares em excesso continuam a ser problemas que afectam directamente a saúde dos portugueses, especialmente os mais idosos. “No interior do País, existe uma maior dificuldade em alterar os hábitos alimentares por várias razões. Desde o acesso a comida mais saudável como peixe passando por uma questão sociológica que vem de gerações antigas.

O hábito de comer carnes vermelhas, enchidos, em grandes doses, já vem de trás e é transmitido dos avós aos filhos até aos netos. Esses hábitos acabam por causar problemas graves como a diabetes e subida da tensão arterial, até em pessoas mais jovens”, explicou o Enfermeiro André Santos. Ao longo dos restantes dias do projecto, este tema foi amplamente falado com os utentes que se deslocaram à unidade móvel de saúde, salientando a importância de criar hábitos alimentares mais saudáveis, que permitem prevenir doenças em vez de seguir para tratamentos terapêuticos. “Aconselhamos as pessoas a alimentarem-se melhor, a fazerem exercício físico regular e a cumprirem a medicação prescrita. Nós, os Enfermeiros, temos um grande papel enquanto educadores”, complementou, por seu turno, o Enfermeiro Leonel Fernandes.

Esta posição vai ao encontro da colega Isabel Gonçalves, que também fez parte do projecto em Vila Nova de Poiares. “Tenho de referir que o ambiente familiar é muito importante no controle de várias doenças, porque os hábitos começam em casa. É aí que está a pedra central daquilo que fazemos todos os dias. Se nos habituamos a comer enchidos, queijos, a consumir açúcares várias vezes ao longo da semana, porque é isso que nos transmitem, estamos perante factores determinantes que vão influenciar a vida das pessoas”, conta à Revista Cuida. Então o que deve ser feito? “É muito importante ter duas noções. Primeiro, existe pouco conhecimento do tipode alimentação que deve ser ingerida para bem do nosso organismo, especialmente nas pessoas idosas e que vivem no interior do país. Estamos a falar de uma geração que não tinha acesso a informação, numa época que os cuidados de saúde eram escassos e muito pouco desenvolvidos”, começa por dizer o enfermeiro Rui Bandeirinha, que esteve na unidade móvel de saúde em Freixo de Espada à Cinta.

“Segundo, nós temos a responsabilidade de dizer aos utentes que têm de fazer consultas de vigilância. É uma batalha enorme mas temos de convencer cada uma das pessoas que é a sua vida que está em risco. Muitas vezes, dizem-nos que não vão ao médico porque não se sentem doentes. Esse pensamento está incorrecto. É preciso alterar essa ideia rapidamente e é para isso, por exemplo, que serve o enfermeiro de família. Mais importante que tratar, é prevenir”, sublinha. Anos de maus hábitos Durante os 12 dias em que o projecto “Ninguém Está Sozinho” esteve na estrada, foram realizados mais de 800 rastreios.

Na maior parte dos casos, verificaram-se situações de descontrolo a nível de diabetes e tensão arterial, que levaram os enfermeiros a apostar na promoção de saúde, relembrando que “cada pessoa tem de ser responsável por si mesma”, como diz o enfermeiro José Miguel Ferreira que percorreu as zonas de Mação, Portel, Castro Marim e Odemira. Perante situações mais complexas, como aconteceu em Vieira do Minho e Vila Nova de Fôz Coa, em que os profissionais de saúde encontraram utentes com níveis perigosos de diabetes e tensão arterial, foram feitos acompanhamentos mais pormenorizados, chegando mesmo a marcar-se consultas nos respectivos Centros de Saúde. “É muito importante que se entenda que a diabetes é uma doença que vai destruindo aos poucos. De um momento para o outro, manifesta-se de várias maneiras e, quando isso acontece, pode ser demasiado tarde para reverter o processo. Desde problemas no coração, rins, vasos sanguíneos, tudo pode acontecer. E não podemos pôr de lado que isso também acontece nos mais jovens, mesmo que seja em números mais reduzido”, conta-nos o enfermeiro.

Já a tensão arterial diz respeito à pressão que o sangue faz na parede das artérias por onde circula. Em Portugal, a DGS aponta para uma taxa de prevalência da Hipertensão Arterial (HTA) nos 26,9%, sendo mais elevada no sexo feminino (29,5%) do que no masculino (23,9%), associando directamente os níveis de colesterol elevados a esta doença (Cerca de 50% dos doentes hipertensos têm um valor de colesterol total elevado). “Em muitos dos locais que visitámos, a população está medicada mas não faz o controlo da sua doença, ou seja, as consultas regulares são negligenciadas e só se deslocam ao Médico de Família quando apresentam algum sintoma. É como se preferissem colocar um penso rápido numa ferida que continua a sangrar, em vez de a tratar de uma vez por todas”, afirma Leonel Fernandes. “É por estas situações que este projecto é vital para a vida dos portugueses. Acabamos por ser nós os portadores da mensagem e vamos ao encontro da população. O sedentarismo está muito presente na nossa sociedade, mesmo quando falamos de saúde. Ou porque as pessoas não têm como se deslocar até aos centros ou pela falta de enfermeiros e médicos. Então tem de existir uma alternativa”, acrescentou o enfermeiro. Nenhum português deve ser esquecido”.

Apesar da evolução dos cuidados de Saúde em Portugal nos últimos anos, ainda é evidente a disparidade que existe no Interior, quando comparado com o Litoral ou com as grandes cidades. A falta de profissionais qualificados nos centros de saúde de zonas menos populosas tem tido um impacto directo na vida das pessoas, deixando até a sensação de que o Interior é “esquecido”. Para muitos dos utentes que se deslocaram até à unidade móvel de saúde, a iniciativa demonstrou uma preocupação genuína com cada um, reforçando a confiança nos enfermeiros e demonstrando que existe um défice nos cuidados de saúde, quando comparamos a qualidade de serviços das zonas costeiras com o interior profundo.

“É importante termos acesso a estes rastreios gratuitos. Por vezes, demoramos meses a conseguir uma consulta”, ouviu-se de um utente em Castanheira de Pêra, uma das zonas mais afectadas com os trágicos incêndios do ano passado. Foi nesta vila que as enfermeiras Isabel Gonçalves e Paula Rodrigues lidaram com vários casos de depressão e onde o papel de profissionais de saúde chegou a confundir-se com a amizade e o apoio de quem sabe que com uma simples conversa pode mudar o dia de alguém. “Para se trabalhar na saúde, é preciso ter uma coisa muito grande: o coração. É isso que os Enfermeiros têm”, ouviram no fim de um dos visitantes da unidade móvel. Ao longo desta viagem, que começou em Arcos de Valdevez e terminou em Odemira, ninguém ficou indiferente ao trabalho que foi feito, às experiências vividas, às histórias que foram contadas e aos desabafos que foram ouvidos. “Vocês ajudam a detectar muitas doenças. Julgamos que nada nos acontece e quando surge algum problema, ficamos muito surpreendidos. Quem me dera que viessem todos os anos”, referiu uma idosa a um dos enfermeiros. Ficou o desejo de repetir e vontade de voltar!

Start typing and press Enter to search