NO CAMINHO DA RECONSTRUÇÃO

Lisboa , 18/10/2017 – Realizou-se esta tarde a reportagem em Coimbra com duas enfermeiras que estiveram em Pedrogão Grande.
( Nuno Pinto Fernandes )

“Não sei o que vai ser de mim”. A frase sai da boca de quem perdeu quase tudo nas chamas. Em segundos, fagulhas transformaram-se em labaredas. Empurradas pelo vento, queimaram tudo o que encontraram. “Ficámos sem nada. Só uma dor no coração”. Como é que se segue em frente depois de uma tragédia como a de Pedrógão Grande? Como é que se lida com a dor de perder alguém que nos é querido? Além de tratar feridas, os enfermeiros que se deslocaram voluntariamente para a Região Centro do País também sararam corações partidos. Foram âncoras de força, essenciais na reconstrução emocional daqueles que ficaram sem caminhos para percorrer.

Junho de 2017. De um momento para o outro, o centro do país começou a arder. O fogo nunca deu um minuto de tréguas. Foi impiedoso: 64 pessoas morreram. Durante sete longos dias, o país contorceu-se de dor ao ver as chamas que levavam vidas. Era preciso ajuda. Com sentido de Estado, a Ordem dos Enfermeiros mobilizou mais de 400 enfermeiros para as zonas afectadas. Um desses profissionais foi Rodrigo Cunha. “Quando vi o que estava a acontecer, senti que tinha de fazer algo para ajudar as pessoas”, começa por dizer o enfermeiro, de 28 anos, da região de Almada. Organizou-se e meteu-se a caminho. Enquanto conduzia, Rodrigo pensava no que ia encontrar e se estaria preparado para lidar com os desafios que lhe iam aparecer à frente.

“Só me apercebi da dimensão da tragédia quando estava a caminho de Castanheira de Pêra. Estava tudo queimado. O fumo ainda era espesso e estava em todo o lado. E o cheiro… foi o que mais me custou. Sentia-se o cheiro de pele queimada. É algo que nunca vou esquecer”, recorda. No Centro de Saúde de Castanheira de Pêra, teve o primeiro grande impacto das consequências dos incêndios na vida das pessoas. “Nas salas de tratamento, estavam dois colegas com duas pessoas e no corredor estavam familiares, em choque, a chorar. Tinha acabado de chegar ao local e fiquei a observar até que tive a realização daquilo que se estava a viver: entre as duas pessoas e as que estavam no corredor, tinham falecido 17 familiares”.

Em poucos minutos, Rodrigo percebeu que estava ali para fazer mais do que tratar feridas. As lágrimas de quem chorava a morte de familiares eram um sinal de que a tragédia tinha feito cortes profundos na alma daquelas pessoas. “A reconstrução começa na entreajuda entre as pessoas. Por mais pequena que seja, por mais simples que seja, é um começo”, diz emocionado.

PÔR DE PÉ TUDO O QUE FICOU EM CINZAS 

Segundo a Presidente da Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiátrica, Helena Quaresma, “o mundo actual é caracterizado por profundas transformações sociais, instabilidade laboral e económico-financeira, o que deixa pessoas e as famílias expostas a situações que as tornam mais vulneráveis”: “Essa vulnerabilidade acaba por ter consequências na saúde mental, e consequentemente, nas estratégias que desenvolvemos para encarar os problemas”. Seja numa situação trágica como a dos incêndios, ou em outras ligadas à área da saúde mental, “na Enfermagem, a família/utente são sempre o principal alvo dos cuidados. A acção do cuidar é dirigida às modificações das respostas cognitivas e comportamentais de cada pessoa, tendo sempre em consideração as suas necessidades, com o objectivo final de melhorar a sua qualidade de vida”, revela a enfermeira Helena Quaresma.

Para o especialista em saúde mental Bruno Henriques, as pessoas afectadas pelos incêndios “viram-se num precipício, com um futuro vazio, e nós queríamos que encontrassem um caminho de recuperação que lhes fosse confortável”. O primeiro passo para a recuperação vem através da compaixão partilhada entre enfermeiro e utente. “É como se tivéssemos um copo cheio que está a transbordar. É mais fácil lidar com os desafios se existir alguém que possa ficar com metade do que está no copo. No terreno, mostrámos disponibilidade, compaixão, partilha de um sofrimento… porque, como a Ordem diz, ninguém está sozinho. É essencial aliviar o choque e ensinar à pessoa que pode e vai continuar a viver, com rumos definidos por si”, explica. O passo seguinte é incentivar a funcionalidade do dia-a-dia. “As rotinas que temos definem o que somos e o que queremos. Mesmo perante um incidente trágico, é fundamental que as pessoas continuem funcionais. Até com coisas mais simples, como ir às compras, tomar banho, ou alimentarem-se a horas certas. Assistimos a pessoas que acabam por ficar tão consumidos com a dor que se esquecem destas coisas e tornam-se apáticas. Essa apatia pode levar a graves consequências físicas e psicológicas, muitas vezes complicadas de reverter”, alerta Bruno Henriques.

O papel de acção rápida dos enfermeiros numa situação dramática tem, muitas vezes, impacto imediato na vida das pessoas, ao permitir que sejam elaboradas estratégias terapêuticas que vão definir o processo de reconstrução, como refere a enfermeira Helena Quaresma: “É crucial que exista a identificação e fortalecimento dos factores de protecção/resiliência e de vulnerabilidade/risco para a saúde mental do individuo. O enfermeiro de saúde mental tem que estabelecer uma ponte relacional com o doente, assumindo o papel terapêutico, ao mesmo tempo que acolhe o indivíduo no primeiro momento pós-trauma. Esse trabalho permite que se compreenda e atribua um significado ao que vivenciou, abrindo espaço para que a pessoa possa sair da angústia de aniquilamento”.

A PROXIMIDADE QUE CONSTRÓI PONTES EMOCIONAIS

 

Vários estudos académicos referem que a morte de um ente querido pode ser considerada um acontecimento fora do comum no ciclo de vida do ser humano, causando um impacto forte que pode provocar mudanças drásticas no trajecto de vida. Nesse sentido, existe uma necessidade por parte do ser humano em reconstruir o significado da perda onde se procura reaprender a viver no mundo sem o que desapareceu. Este processo de luto é complexo, multidimensional, que envolve o domínio físico, social e psicológico.

A enfermeira Juliana Silva, que esteve em Castanheira de Pêra, também presenciou o drama humano da população. Para esta profissional da saúde, a Enfermagem tem um papel fundamental na reconstrução de uma vida, especialmente em casos tão dramáticos como os que aconteceram. “A proximidade com as populações é imprescindível no processo de recomeçar a vida depois de algo trágico. Por exemplo, no caso das regiões afectadas pelos incêndios, os enfermeiros dos centros de saúde conheciam muitas das pessoas que perderam familiares ou bens e o acompanhamento que fizeram no pós-incêndio tem sido único para que as pessoas não se sintam sozinhas, capazes de continuar as suas vidas, encarar a dor, aprender a lidar e viver com ela. Essa proximidade é crucial”, conta-nos.

O caminho para a reconstrução vai para além da competência emocional para lidar com a perda. A proximidade com as pessoas é essencial na descoberta de energia interna, contribuindo para que se encontre significado na sua própria existência. “A reconstrução pode não ser só o processo de lidar com a perda de algo mas também com o renovar a própria vida. No interior, por exemplo, muitos idosos estão habituados a viver sozinhos, sem ajuda. A Enfermagem de proximidade tem que existir. É sair dos centros de saúde e dos hospitais e ir junto das populações”, considera Juliana Silva.

FERRAMENTAS PARA LIDAR  COM A ANGÚSTIA

Apesar do profissionalismo, o que sente um enfermeiro quando convive directamente com a morte e a dor dos outros?

Para Bruno Henriques, o auto-conhecimento é a principal chave para lidar com essa dinâmica: “A maior parte das vezes deparamo-nos com situações muito complicadas, que não são vividas por muita gente. Seja o facto de termos de lidar com familiares a encararem pela primeira vez que um ente querido morreu, ou nós quando perdemos um paciente. Temos de estar preparados para os problemas dos outros e ao fazermos isso criamos ferramentas que nos permitem lidar com o mundo de um modo saudável, primeiro internamente e só depois para fora”. Esta visão é partilhada por Juliana Silva. “O cheiro a fumo demorou muito tempo a sair da alma. As roupas lavam-se, mas a alma precisa de tempo para se curar. Nada daquilo era fácil. Tive de me reorganizar internamente de modo a que a minha dor não ocupasse o espaço do processo de reconstrução dos outros. Tive sempre a noção de que tinha de ser construtiva”, confessa a enfermeira.

Também Rodrigo Cunha considera que uma das ferramentas essenciais para enfrentar aquele pesadelo foi a união: “Sei que o apoio que demos uns aos outros enquanto lá estivemos acabou por ser a força que conseguimos dar a quem mais precisava de nós. Sabíamos quando precisávamos de descomprimir, chorar, estar sozinhos, não estar sozinhos. Esse aspecto mental e emocional foi essencial para cumprirmos o nosso dever, no melhor das nossas capacidades como enfermeiros”. Depois de um verão trágico, é altura de recomeçar. Reconstruir. Esperar que a chuva e o frio acalmem os corações partidos daqueles que agora buscam novos rumos. Ao lado deles, vão estar os enfermeiros. Sempre ao lado de quem mais precisa.

 

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