Prematuridade: A superação da “bebé beijo”

Júlia tem seis anos, mais de 1,20 metros de altura e pesa 21 quilos. Mas quando nasceu, às 25 semanas e dois dias de gestação, media 33 centímetros e era 723 gramas “de gente”. Joana Pimenta, a mãe, acreditou sempre que o seu “bebé beijo” iria lutar contras as adversidades da grande prematuridade. E assim foi. Com a ajuda de uma equipa multidisciplinar onde os enfermeiros, sobretudo Narcisa, foram peça-chave para o sucesso de Júlia.

Dia 07 de Março de 2011. Era a data prevista para o nascimento da primeira filha de Joana. Mas quatro meses antes, a 24 de Novembro de 2010, depois de um dia stressante de trabalho e de uma consulta de Obstetrícia onde tudo estava bem, Júlia abandonou o conforto do útero materno e deu início ao maior desafio da sua vida.

Joana viveu aqueles acontecimentos com um misto de espanto e de ansiedade. As causas para o parto prematuro permanecem um mistério, mas a tudo o resto deixou de ser  um enigma mal Joana chegou ao Hospital São Francisco Xavier (HSFX), em Lisboa. “Portugal ocupa o quinto lugar ao nível internacional na Neonatologia” e a equipa do HSFX foi inascedível em tudo, incluído na humanização de cuidados. “Nunca, como ali, fui tratada com tanto carinho e atenção”, recorda Joana Pimenta, mesmo que nunca niguém lhe tivesse dado a certeza de que tudo ia correr bem.

Tecnicamente não tinha dúvidas de que a equipa estava a fazer tudo o que era possível. Mas “quer queiramos, quer não, acabamos por ficar reféns dos apitos das máquinas, dos números que surgem no monitor”. E aí, a vigilância e as explicações dos enfermeiros foram fundamentais, assim como o amparo de quem também é pai ou mãe, de quem também deseja que seres tão pequenos e indefesos encontrem força suficiente para ultrapassar cada etapa.

A primeira vez que Joana pegou em Júlia foi um mês após o parto, na véspera de Natal. “Como a data era festiva e a Júlia estava estável, as enfermeiras quiseram fazer-nos este miminho. Chorei tanto que as lentes de contacto saltaram”, recorda emocionada.

Narcisa, Guilhermina, Álvaro, Marina e Joana são apenas alguns dos nomes dos enfermeiros que Joana Pimenta recorda com eterna gratidão. “Conseguem dar-nos segurança e uma palavra amiga ao mesmo tempo que fazem um trabalho super-minucioso e duríssimo, porque há mortes e sequelas graves”.

Foi graças a eles, em especial à enfermeira Narcisa, que integrou o Grupo de Ajuda Mútua, uma iniciativa que unia pais de prematuros na troca de experiências e na partilha de esperança.

E foi essa esperança que reforçou em Joana o seu optimismo habitual. No fundo, sabia que a sua menina iria vencer as dificuldades. “Por mais que nos custe, não devemos deixar-nos dominar pelo medo. Devemos, isso sim, aproveitar cada momento que temos com o bebé e convencê-lo de que vai sair dali. Ou seja, não podemos deixar de acreditar que o dia seguinte será melhor”, aconselha Joana Pimenta.

Era por isso que lhe “mudava a roupinha todos os dias”: pensava que teria de fazer à sua filha o que as outras mães faziam. “Gostava de a preparar como se fosse ter alta, porque esse dia haveria de chegar”, recorda. E de facto chegou, precisamente no dia em que Júlia completou quatro meses. Até lá, o Natal, o Ano Novo e até o Carnaval ­- em que Júlia foi mascarada de Metralha por estar “presa” na Neonatologia – foram passados com uma nova família : a equipa que todos os dias ajudava Júlia a deixar para trás os vestígios da sua prematuridade. Ainda hoje mãe e filha visitam o serviço e os reencontros são sempre uma festa.

 

Energia e curiosidade pela vida

Júlia sabe que quando nasceu era um bebé muito pequenino, mais do que a sua mana Madalena, hoje com dois anos. E prontamente explica que era o “bebé beijo” porque “a mãe estava sempre a dar-me beijinhos”. As imagens dos tempos passados na incubadora são-lhe familiares: “A minha avó tirou-me fotos e eu tenho um álbum de quando nasci.”

É sem dificuldade que a menina trepa uma rede e sobe todo o complexo infantil que integra o escorrega, confirmando mais uma vez que é uma menina forte. E sobretudo linda, como a mãe a achou desde o primeiro momento de vida. “Acho que sofri uma espécie de colapso porque não via a Júlia como as outras pessoas a viam. Ela era a minha filha e era um bebé formado. Tinha até um cabelinho ruivo com franja que achei um amor”.

Júlia foi operada com  apenas 10 dias e resistiu. Ao longo dos anos necessitou de ajuda de vários profissionais de saúde, nomeadamente na área da Cardiologia e da Oftalmologia, e aproveitou-a da melhor forma: desde os cinco que não precisa de ir à Consulta de Desenvolvimento do Hospital São Francisco Xavier. Durante mais de dois anos usufruiu do apoio d’ ”Os Francisquinhos”,  a Associação de Pais e Amigos das Crianças do Hospital de S. Francisco Xavier que, neste caso, proporcionou sessões de Terapia da Motricidade.

A frequentar a pré-primária, Júlia é extrovertida, cheia de energia e curiosidade em conhecer o que a rodeia. Tem apoio ao nível da motricidade fina onde “faço letras e pinto”, explica, e não deixa por créditos alheios a sua participação no ballet e natação. Em Setembro vai dar início a uma nova etapa: ingressará no 1º ano de escolaridade, como qualquer menina de seis anos.

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